É primavera, os dias estão mais longos e muita gente acha que o sol resolve a vitamina D sozinho. Ao mesmo tempo, o exame aparece em todo pedido de check-up, e a farmácia vende gotas de vitamina D logo no balcão.
O corpo fabrica a vitamina D sozinho, na pele, quando recebe os raios UVB do sol. A comida sozinha cobre mal a necessidade, e é o sol que faz a maior parte do trabalho.
Sol tem, vitamina D nem sempre
Em 1988, em Boston, a equipe de Michael Holick expôs ao sol pele humana e a molécula que a pele transforma em vitamina D. De novembro a fevereiro, inverno de lá, mesmo com céu limpo, não se formava nada. Mais ao sul, por volta de 34 e 18 graus de latitude, o sol de inverno ainda fazia o trabalho (Webb et al., 1988). O Brasil inteiro, do Amapá ao Chuí, fica mais perto do equador do que esses 34 graus.
Mesmo assim, a deficiência é comum por aqui. Uma meta-análise juntou 72 estudos brasileiros feitos entre 2000 e 2017. Em média, 28% das pessoas tinham deficiência e 45% tinham insuficiência. A deficiência era mais frequente no Sul e no Sudeste (Pereira-Santos et al., 2019). A gente passa o dia dentro de casa, do escritório ou do carro, usa protetor solar, e o sol que bate na pele é pouco. Na Europa, as pessoas de pele mais escura tinham deficiência muito mais vezes (Cashman et al., 2016).
Algumas mulheres já começam em desvantagem. Cerca de 85% das que procuram o médico por causa da menopausa têm falta de vitamina D, e o intestino absorve menos com a idade. Com SOMP, a falta é muito comum e anda junto com uma resposta pior à insulina. Com endometriose, ela também conta, porque a vitamina D ajuda a regular o sistema imunológico.
Por que as sociedades médicas seguram o exame
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia dizem que não há indicação para dosar a vitamina D em adultos sem nenhuma doença, e que a triagem em massa não se justifica (SBPC/ML e SBEM, 2017). Em 2024, a Endocrine Society americana foi na mesma linha e desaconselhou o exame de rotina em adultos saudáveis (Demay et al., 2024).
O raciocínio faz sentido. O estudo VITAL deu 2.000 UI por dia ou placebo a quase 26 mil americanos com mais de 50 anos, durante cinco anos em média. O suplemento não diminuiu nem os casos de câncer nem os infartos e AVCs (Manson et al., 2019). A maioria dos participantes já tinha um nível bom no começo. Dar vitamina D para quem já tem o suficiente não muda grande coisa.
É exatamente por isso que eu peço o exame. As mulheres que eu acompanho com SOMP, endometriose ou na menopausa não são a população geral dessas recomendações. Um número de partida diz se existe deficiência, e de quanto. Sem ele, você toma gotas no escuro, ou deixa de tomar quando precisava. Peça o exame ao seu médico.
Como ler o resultado
O exame mede a 25-hidroxivitamina D, a forma de reserva. No Brasil, o laboratório dá o resultado em ng/mL. Pelo consenso brasileiro, acima de 20 ng/mL é o desejável para a população saudável até 60 anos. Entre 30 e 60 ng/mL é o recomendado para grupos de risco, como pessoas acima de 60 anos, gestantes, quem tem osteoporose ou doença autoimune. Acima de 100 ng/mL existe risco de toxicidade.
A estação conta. Um exame feito no fim do inverno não dá o mesmo número que um feito no fim do verão, e é preciso saber disso para comparar dois resultados.
Em caso de deficiência, 2.000 a 4.000 UI por dia costumam corrigir sem risco. 4.000 UI também é o limite que o serviço de saúde britânico aconselha não ultrapassar sem orientação médica. Acima disso, por muito tempo, o cálcio se acumula no sangue e pode enfraquecer os ossos e danificar rins e coração (NHS). Quem define a quantidade e marca o próximo exame é o seu médico.
Pegar a luz da manhã continua sendo um bom hábito, nem que sejam dez minutos, porque acerta o relógio interno. Para saber da vitamina D, quem responde é o exame.
Este artigo é apenas informativo e não substitui orientação médica.