Por Marc Dessein ·

Sem fome com GLP-1, como comer proteína suficiente

Um café de manhã, e nada mais desce. No almoço, três garfadas e metade do prato volta. À noite, só de pensar num bife dá enjoo. No tratamento com GLP-1, os dias costumam ser assim. É o próprio princípio do remédio, que acalma a fome e deixa o esvaziamento do estômago mais lento. A balança desce. Mas quando se come pouco de tudo, também se come pouca proteína, e quem paga é o músculo.

O tratamento, o ajuste e a duração dele são decisão do seu médico. Aqui eu falo do que vai no prato.

A gente come muito menos

Num estudo de doze semanas com 30 pessoas com obesidade, uma molécula dessa família reduziu em 24% as calorias comidas à vontade ao longo do dia, comparada a um placebo. Os participantes tinham menos fome, menos vontades, e se interessavam menos por alimentos gordurosos (Blundell et al., 2017). Uma revisão de 2024 que reuniu os estudos sobre a alimentação de quem faz o tratamento encontrou uma queda de 16 a 39% nas calorias. Pouquíssimos desses estudos olharam o que sobrava no prato (Christensen et al., 2024).

Um pequeno estudo americano publicado este ano preencheu parte dessa lacuna. Vinte e oito adultos anotaram o que comiam durante as 24 semanas depois de começar o tratamento, sem nenhum acompanhamento nutricional. As calorias caíram, e a proteína junto. Cerca de um quarto do peso perdido era músculo, segundo uma estimativa por bioimpedância. E quanto mais proteína os participantes comiam, melhor o músculo era preservado (Babazadeh et al., 2026). Os próprios autores dizem que a amostra é pequena e que o resultado ainda precisa ser confirmado. Ele vai na mesma direção do que eu vejo no coaching. Quem come pouca proteína é quem mais perde músculo.

Em 2025, quatro sociedades científicas americanas publicaram um parecer conjunto sobre alimentação no tratamento com GLP-1. Entre as dificuldades, citam as carências causadas pela queda das calorias e a perda de músculo e de osso. Entre as prioridades, preservar o músculo com musculação e uma alimentação adequada (Mozaffarian et al., 2025). A musculação eu tratei no artigo sobre GLP-1 e músculos. Aqui o assunto é proteína.

A regra continua a mesma

Pelo menos 30 g de proteína de manhã, e pelo menos 30 g depois das 17 h. Todos os dias, com tratamento ou sem. Para um homem, de manhã, é mais para 40 a 50 g. A refeição da noite nunca é opcional, nem quando o apetite está no chão. A única exceção são os dias de jejum prolongado.

Essas duas refeições contam mais que as outras. De manhã, o corpo sai de uma noite inteira usando as reservas. À noite, ele vai passar muitas horas sem receber nada. Entre as duas, você pode seguir a sua fome.

A distribuição também conta. No Texas, oito adultos saudáveis comeram durante uma semana a mesma quantidade de proteína, dividida de dois jeitos. Ou uns 30 g em cada refeição, ou 11 g no café da manhã, 16 g no almoço e 63 g à noite. Com a divisão igual, a construção de músculo em 24 horas foi 25% maior (Mamerow et al., 2014). Com GLP-1, o padrão que se instala sozinho é justamente o segundo. Nada de manhã, quase nada no almoço, e uma única refeição de verdade à noite.

No dia, mire em cerca de 1,5 g de proteína por quilo. Se você tem muito peso a perder, faça a conta a partir do peso que quer atingir, não do peso atual.

Proteína primeiro

Quando o estômago enche em poucas garfadas, a ordem do prato decide o que entra. Comece pela carne, pelo peixe ou pelos ovos. Os legumes e os carboidratos vêm depois, se sobrar espaço. Essa ordem tem outra vantagem, ela faz a glicemia subir menos, como eu explico no artigo sobre a ordem dos alimentos.

Coma a sua proteína de uma vez. Um shake tomado aos golinhos durante duas horas não eleva o suficiente os aminoácidos no sangue para ligar a construção do músculo. Com GLP-1, mesmo assim, é o que muita gente acaba fazendo.

Alimentos densos, não porções grandes

A ideia não é comer mais volume. É escolher alimentos que trazem muita proteína em pouco espaço.

O skyr é o melhor exemplo. Cerca de 10 g de proteína a cada 100 g, por 60 calorias, o dobro de proteína de um iogurte grego. Um pote de 200 g já dá 20 g. Skyr, iogurte ou kefir, escolha natural, com o mínimo de ingredientes possível.

Os ovos contam menos do que se imagina. Dois ovos trazem cerca de 12 g de proteína, e são precisos quatro ou cinco para chegar a 30 g. Três ovos com 200 g de queijo cottage chegam a cerca de 40 g, se você tolera bem os laticínios. É o tipo de café da manhã que deixa um homem chegar aos 40 a 50 g sem precisar se forçar.

Para carne, frango ou peixe, 130 a 150 g dão uns 30 g. Se for muito, 80 g de salmão com dois ovos fazem a mesma conta. O queijo duro traz tanta proteína quanto a carne num volume bem pequeno, 25 a 30 g a cada 100 g, mas também muitas calorias. Use como complemento.

Nas manhãs em que nada desce, uma proteína em pó neutra, sem aroma, completa um café da manhã leve demais. Ela completa uma refeição, não substitui. Um shake de proteína do soro do leite batido com iogurte grego e frutas vermelhas dá um café da manhã de cerca de 40 g que se toma em poucos minutos.

Para os dias realmente difíceis, os aminoácidos essenciais em suplemento permitem enriquecer uma refeição pequena sem comer mais. Dois ovos com uma porção de aminoácidos essenciais provocam a mesma resposta muscular que uma refeição de 30 g. Fale com o seu médico antes de acrescentar um suplemento.

O que o seu médico precisa saber

Se até 30 g de manhã parecem impossíveis, ou se o enjoo faz você pular refeições inteiras vários dias seguidos, conte para o seu médico. É uma informação de que ele precisa para ajustar o seu acompanhamento.

O remédio diminui o volume do que você come. O que você coloca nesse volume é escolha sua. O seu músculo conta com essas duas refeições, a da manhã e a da noite.

Este artigo é apenas informativo e não substitui orientação médica.

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