Menstruação que vem a cada quarenta e cinco dias, às vezes menos. Espinha no queixo aos trinta anos. Alguns pelos no rosto que só engrossam. E um médico que descarta a SOMP só de olhar, porque você veste 36.
A SOMP atinge mais ou menos uma mulher em cada oito. Três em cada quatro ganham peso com facilidade. A quarta continua magra, e muitas vezes é a última a ser diagnosticada, porque a imagem da síndrome ainda está colada ao sobrepeso.
O peso não faz parte do diagnóstico
Os critérios não mudaram com o nome novo. São dois sinais em três. Ciclos irregulares ou ausentes, excesso de andrógenos visível na pele ou no exame de sangue, e ovários cheios de pequenos folículos no ultrassom, que na mulher adulta pode ser trocado por um AMH alto (Teede et al., 2023). O peso não aparece em lugar nenhum.
Por isso a síndrome muda de cara de uma mulher para outra. Algumas menstruam certinho e nunca pensam nisso. Outras não têm espinha nem pelo. Junte um corpo magro, e nada lembra o quadro que se aprende na faculdade.
O atraso é real. Numa pesquisa com 1.385 mulheres com a síndrome, na América do Norte e na Europa, uma em cada três esperou mais de dois anos pelo diagnóstico, e quase metade passou por pelo menos três profissionais de saúde (Gibson-Helm et al., 2017). A pesquisa não separou as mulheres magras. Mas quando o primeiro reflexo é pensar em sobrepeso, são elas que escapam.
Magra por fora, nem sempre por dentro
A gordura que pesa na SOMP não aparece na balança. É a gordura visceral, a que fica em volta do fígado e do intestino. Ela solta substâncias inflamatórias o tempo todo, que deixam as células menos sensíveis à insulina, e dá para ter essa gordura sem nenhum quilo a mais.
Na Universidade da Califórnia em Los Angeles, a equipe de Daniel Dumesic comparou seis mulheres de peso normal com a síndrome a catorze mulheres da mesma idade e do mesmo IMC, sem a síndrome. Na ressonância, as primeiras tinham mais gordura dentro do abdômen, e a insulina de jejum era mais alta. Quanto mais altos os andrógenos, mais dessa gordura profunda elas tinham. Embaixo da pele, as células de gordura eram mais vezes pequenas. Os autores acham que esse estoque enche mal e empurra a gordura para dentro (Dumesic et al., 2016).
O estudo é minúsculo, seis mulheres. Mesmo assim mostra por que um IMC normal tranquiliza à toa. A resistência à insulina segue o mesmo caminho, e eu expliquei isso no artigo sobre resistência à insulina, junto com os exames para pedir.
Emagrecer não é o objetivo
Com SOMP e peso para perder, perder 5 a 10% muitas vezes basta para a ovulação voltar. Esse conselho foi pensado para três quartos das mulheres. Dado do mesmo jeito para uma mulher magra, ele a empurra a cortar refeições quando ela não tem nada para perder.
O terreno é frágil. Os transtornos alimentares são bem mais frequentes com SOMP. Restringir, ceder, se culpar, recomeçar. Esse ciclo aumenta o estresse, bagunça a fome e piora a resistência à insulina que ele deveria corrigir. Falo mais disso em SOMP e dieta.
Uma revisão britânica sobre a SOMP em mulheres magras vai na mesma direção. Os autores encontram uma resistência à insulina que não depende do peso, e falam em manter o peso, não em perder (Toosy et al., 2018). Eles reconhecem que os estudos sobre esse perfil ainda têm qualidade baixa a moderada.
Para uma mulher magra, o trabalho é outro. Comer o suficiente, em horários regulares, com proteína em todas as refeições. E construir músculo.
O músculo é a alavanca de verdade
O músculo é o maior consumidor de açúcar do corpo. Cada quilo ganho capta um pouco mais, e o corpo precisa de menos insulina para a mesma refeição.
Em Ribeirão Preto, uma equipe da Faculdade de Medicina da USP colocou 45 mulheres sedentárias com a síndrome e 52 sem a síndrome para fazer musculação três vezes por semana durante quatro meses. O IMC ia de 18 a 39,9, incluindo mulheres magras. Nas mulheres com a síndrome, a testosterona caiu, a cintura diminuiu e a massa muscular aumentou (Kogure et al., 2016). Não houve sorteio dos grupos, e os autores não encontraram efeito claro no metabolismo. A queda dos andrógenos veio só do treino, sem dieta.
Duas a três sessões por semana bastam, corpo inteiro, com cargas que sobem aos poucos. Agachamento, afundo, levantamento terra, barra, exercícios de empurrar. Muita mulher com andrógenos altos tem medo de ficar grande. Na prática, o músculo ocupa o lugar da gordura e o corpo fica mais definido. Some dez a quinze minutos de caminhada depois do almoço e do jantar, e os músculos das pernas captam o açúcar sem esperar a insulina.
Se você é magra e seu ciclo não tem nada de regular, peça para investigar, e procure outra opinião se mandarem você para casa por causa do peso. O seu IMC não diz nada sobre a sua insulina, enquanto o seu ciclo, a sua cintura e a sua força dizem muito.
Este artigo é apenas informativo e não substitui orientação médica.